Uma pesquisa sobre educação que me impressionou recentemente foi a que ficou conhecida como “Efeito Pigmalião” ou “Efeito Rosenthal”. No mito grego, Pigmalião era um rei e escultor. Apaixonado pela deusa Afrodite, ele a esculpe e, fascinado por sua obra, pede à deusa que dê vida à escultura de marfim. Normalmente, Pigmalião é referido como metáfora de alguém que tem o poder de moldar ou modificar outra pessoa, no sentido de formar, orientar, como os professores, que podem influenciar seus alunos.
O experimento dos psicólogos americanos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson, feito nos anos 1960, foi pensado para testar o efeito de determinadas expectativas dos professores em relação a seus alunos. Os psicólogos fizeram uma dinâmica com alunos dos anos iniciais do ensino fundamental e, no final, indicaram aos seus professores quais eram os 10 alunos mais inteligentes do grupo. Combinaram de voltar no ano seguinte.
Pois bem, aqueles 10 alunos tiveram uma melhora significativa em seu rendimento escolar. Os professores não sabiam que a escolha das 10 crianças havia sido aleatória. Por isso, suas expectativas eram autênticas. O resultado da pesquisa foi que as expectativas altas dos professores em relação àqueles alunos influenciou positivamente no desempenho acadêmico deles. Se uma criança não tem em casa um olhar confiante na sua inteligência, ainda pode receber essa motivação na escola e ter a certeza de que ela tem capacidade de aprender e desenvolver suas aptidões.
Para além das controvérsias de pesquisas como a de Rosenthal e Jacobson, quero reforçar essa ideia com os diversos exemplos de escolas públicas brasileiras situadas em locais de baixo IDH que têm estudantes com os melhores desempenhos do Brasil. Qual é o milagre? Geralmente, uma pessoa muito entusiasmada consegue contaminar toda a comunidade escolar e, por consequência, os alunos se sentem motivados a aprender e colaborar uns com os outros. Nestas escolas, é comum ver ações de colaboração entre famílias, gestores, professores e estudantes.*
A motivação instigada pelos professores por meio de atividades desafiadoras pode influenciar uma pessoa por toda a sua vida. Esse estímulo não significa apenas esperar boas notas, mas sim dar o exemplo de atitude interessada em aprender coisas novas e também colaborar na aprendizagem da criança, dando a ela o suporte que for necessário. Um olhar confiante é o primeiro passo, não só para professores, mas também para familiares e sociedade, para termos crianças curiosas e interessadas em aprender. É uma lição que está ao nosso alcance: a expectativa que colocamos nas crianças e o nível de desafio que propomos em cada conversa, em cada interação, podem moldar uma personalidade investigativa, reflexiva e colaborativa.
- Artigo publicado no jornal Gazeta do Sul em 25 de junho de 2025.
- Foto tirada no Community Literacy Center da Universidade de New Hampshire, onde eu tive a oportunidade de trabalhar como Graduate Assistant ao longo de dois semestres letivos enquando cursava um Mestrado em Educação na mesma universidade. Na foto, apareço em primeiro plano com o livro que estou lendo para as crianças que frequentavam as oficinas "Do livro para a arte" (Book to Art) no espaço educativo do CLC. Durante esses dois semestres, também fiquei encarregada de escrever blogposts resenhando pesquisas sobre alfabetização, literacia e letramento para o blog do projeto, chamado Tinder and Flint (nome que homenageia uma série de livros de aventura e fantasia). Este blog da UNH também está hospedado no blogger.
* Recomendo os seguintes vídeos sobre o assunto:
Reportagem da BBC Brasil sobre as escolas de melhor e de pior nota no IDEB 2023. As diferenças ficam claras e passam pela questão levantada por este artigo. No Youtube: "Duas cidades pobres, mas uma tem a melhor educação básica do Brasil". Em: https://www.youtube.com/watch?v=LxEjBAXkMew
"Educação que dá certo: Episódio 1: Teresina, a cidade com o maior IDEB", 2022. Em: https://www.youtube.com/watch?v=GRn30502bAg
Referências
DWECK, Carol. Mindset: the new psychology of success. New York, Random House, 2006.