Provavelmente você já teve a experiência de conversar em sala de aula, ou pelo menos de ver colegas conversando, não é? Quero falar aqui sobre um tipo de conversa em sala de aula usado como metodologia em outros países, que tive a chance de ver funcionando e dando excelentes resultados.
Países que ficam no topo das avaliações internacionais de educação, como a Finlândia, descobriram que um dos segredos da alfabetização é propiciar momentos em que os estudantes conversem uns com os outros. Essa conversa precisa ser mediada pelo professor e feita de forma intencional, tratando do conteúdo estudado e usando a linguagem acadêmica: aquela dos livros e materiais escolares.
Falo de um verdadeiro diálogo entre as crianças. Não aquele curto período em que um professor faz perguntas para a turma com o objetivo de verificar a compreensão de algum assunto. Isso não é suficiente. Quando a conversa em sala de aula é muito centrada no professor, os alunos não conseguem desenvolver o pensamento, simplesmente porque não têm oportunidades de se expressar com frases completas. Somente a prática do diálogo entre os estudantes e um tempo razoável para explorar o conteúdo terão o efeito de facilitar a alfabetização.
A prática da linguagem oral é crucial para organizar o pensamento, transmitir ideias e expressar opiniões. Na década de 1960, o britânico Andrew Wilkinson observou que o desenvolvimento da oralidade (“oracy”, termo que ele introduziu por meio de sua pesquisa) levaria ao aumento da habilidade de leitura e escrita à medida que os estudantes se tornassem cada vez mais proficientes.
Nas salas de aula tradicionais, os professores falam durante a maior parte do tempo, enquanto os alunos permanecem em silêncio ouvindo ou fazendo suas tarefas individualmente. Espera-se que os alunos memorizem e depois repitam o conteúdo em provas e trabalhos escritos. Uma pesquisa recente que me encantou, conduzida por Jennifer Keys Adair, sobre dinâmicas em sala de aula, mostra que melhores resultados na aprendizagem de alunos de 1º e 2º anos ocorrem justamente quando a dinâmica permite a “agência” do estudante: autonomia para pesquisar e oportunidades variadas de conversar com colegas sobre o material estudado.
Pais e familiares podem seguir as mesmas dicas para ajudar as crianças a melhorar suas habilidades de leitura e escrita por meio da fala. Conversas livres sobre temas do cotidiano com as crianças impulsionam suas habilidades expressivas, o que impacta positivamente no pensamento lógico e no uso da linguagem. A conversa pode partir de um livro ou apenas de perguntas abertas sobre temas que as crianças conheçam. Talvez os avós sejam os familiares que mais aproveitam essas oportunidades. Eles sabem o quanto essas conversas podem ser reveladoras e divertidas!
- Artigo publicado no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul, em 06 de junho de 2025.
- Imagem: foto tirada por mim na sala de aula do 5º ano da escola Little Harbour, na cidade de Portsmouth, New Hampshire, onde fiz um dos estágios de observação do Master in Educational Studies da Universidade de New Hampshire, EUA.
Referências
ADAIR, Jennifer K., COLEGROVE, Kiyomi & MCMANUS, Molly. “How the Word Gap Argument Negatively Impacts Young Children of Latinx Immigrants Conceptualizations of Learning" In: Harvard Educational Review 87(3):309-334, Harvard Education Publishing Group, 2017.
COHEN, Elizabeth G., LOTAN, Rachel A. Planejando o Trabalho em Grupo: estratégias para salas de aula heterogêneas. Porto Alegre, Editora Penso, Instituto Sidarta, 2017.
ROBINSON, Ken & ARONICA, Lou. Escolas Criativas: a revolução que está transformando a educação. Porto Alegre, Editora Penso, 2019.
WILKINSON, Andrew. The Concept of Oracy. In: Educational Review, 17(4), 11–15. https://doi.org/10.1080/0013191770170401a. Taylor & Francis, The University of Birmingham, 1965.

Nenhum comentário:
Postar um comentário