sábado, 3 de maio de 2025

Inclusão de todos: boa notícia*

   A close-up of hands touching a pie chart

Uma feliz coincidência pode representar uma boa notícia para a educação no Brasil. As conclusões de pesquisas recentes sobre classes inclusivas surpreendentemente combinam com as recomendações para a transformação da educação tradicional, mesmo quando tais propostas não abordam especificamente a questão da inclusão de estudantes com deficiência intelectual. Vamos deixar claro aqui que o problema da educação hoje não passa apenas pela questão das metodologias, mas também pelo estado atual de desvalorização dos professores e pela falta de diálogo e autonomia nas escolas.
            Recapitulando: como funciona a sala de aula tradicional? Os estudantes devem sentar-se quietos, fazer silêncio, olhar para a frente e ouvir o professor. O conteúdo é apresentado oralmente pela pessoa que detém o conhecimento, que é o centro das atenções, e os alunos devem absorver aquele conteúdo e reproduzi-lo em exercícios escritos, nos testes e na prova final. Pronto! Depois, podem esquecer, porque já receberam a nota pela qual todo o esforço foi feito.
            Resumo terrível, não? Pois é nesse formato que a educação tem sido oferecida às crianças e jovens pelo menos nas últimas seis décadas no Brasil. A ênfase em aulas expositivas e testes padronizados gera estudantes passivos (ou distraídos). Ou seja, nossas crianças são treinadas por 12 anos a terem um comportamento passivo, competitivo e solitário (pensemos juntos qual seria o contrário dessas três atitudes.)
            Além disso, o método de avaliação por meio de testes e provas reduz a diversidade de raciocínio e dificulta a adaptação de ritmo e conteúdo às necessidades individuais dos estudantes. Um teste será útil se servir de diagnóstico para complementar o que não foi aprendido, em vez de apenas rotular os estudantes. A ideia de diferenciação de conteúdos e de formas de ensinar para tipos diversos de estudantes (relacionado ao conceito de Desenho Universal para Aprendizagem), aparece em artigos científicos no mundo todo, mas não muito na prática das escolas no Brasil. 
            Paralelamente à crise geral da educação, o que tem desacomodado o sistema escolar nos últimos 15 anos é a inclusão de crianças com deficiências. Pois bem. Geralmente, as recomendações das pesquisas mais atualizadas para escolas inclusivas são: redefinição dos processos de ensino-aprendizagem, uso de abordagens com aplicação prática dos conceitos, criação de currículo individualizado ou adaptação de currículo, colaboração entre os alunos, uso de metodologias ativas (todas as dinâmicas pedagógicas que não sejam a tradicional combinação aula expositiva e prova), uso de programas flexíveis, multidisciplinaridade, diálogo entre estudantes, estudo em grupo em sala de aula e apoio mútuo. Exatamente as mesmas recomendações para a transformação da educação tradicional em uma forma mais colaborativa de aprendizagem.
            Se as pesquisas em neurociência concluem que o aprendizado efetivo ocorre quando há participação ativa do aluno na construção do seu próprio conhecimento, então, aprender aplicando os temas a situações práticas, debatendo para ouvir o ponto de vista dos colegas, fazendo inferências e conexões representaria o processo de ensino-aprendizagem ideal. Todas, absolutamente todas as recomendações para classes com diversidade seriam oportunidades muito mais efetivas de ensinar qualquer turma, tendo ela pessoas com neurodiversidade, dificuldade de aprendizagem ou não. 
            Cabe aqui um adendo oportuno. A prática das metodologias ativas inclui todos os alunos no processo de aprendizagem. Se bem aplicada, essa prática transforma o professor em um guia, que orienta e coopera com a aprendizagem dos estudantes. O estudo colaborativo gera autoconhecimento, melhora a autoestima, ensina a pesquisar e a trabalhar em equipe, leva à empatia entre colegas e professores e tem grandes chances de disseminar o entusiasmo pelo conhecimento.


  • Artigo publicado no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul, em 29 de abril de 2025.


REFERÊNCIAS


COHEN, Eizabeth G., LOTAN, Rachel A. Planejando o trabalho em grupo: estratégias para salas de aula heterogêneas. Porto Alegre, Editora Penso, Instituto Sidarta, 2017.

KHAN, Salman. Um Mundo, uma escola, a educação reinventada. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2013.

RESNICK, Mitchel. Jardim de infância para a vida toda: por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. Porto Alegre, Editora Penso, 2020.

ROBINSON, Ken & ARONICA, Lou. Escolas criativas: a revolução que está transformando a educação. Porto Alegre, Editora Penso, 2019.







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