terça-feira, 1 de julho de 2025

O efeito Pigmalião na educação

 

Uma pesquisa sobre educação que me impressionou recentemente foi a que ficou conhecida como “Efeito Pigmalião” ou “Efeito Rosenthal”. No mito grego, Pigmalião era um rei e escultor. Apaixonado pela deusa Afrodite, ele a esculpe e, fascinado por sua obra, pede à deusa que dê vida à escultura de marfim. Normalmente, Pigmalião é referido como metáfora de alguém que tem o poder de moldar ou modificar outra pessoa, no sentido de formar, orientar, como os professores, que podem influenciar seus alunos. 

O experimento dos psicólogos americanos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson, feito nos anos 1960, foi pensado para testar o efeito de determinadas expectativas dos professores em relação a seus alunos. Os psicólogos fizeram uma dinâmica com alunos dos anos iniciais do ensino fundamental e, no final, indicaram aos seus professores quais eram os 10 alunos mais inteligentes do grupo. Combinaram de voltar no ano seguinte. 

Pois bem, aqueles 10 alunos tiveram uma melhora significativa em seu rendimento escolar. Os professores não sabiam que a escolha das 10 crianças havia sido aleatória. Por isso, suas expectativas eram autênticas. O resultado da pesquisa foi que as expectativas altas dos professores em relação àqueles alunos influenciou positivamente no desempenho acadêmico deles. Se uma criança não tem em casa um olhar confiante na sua inteligência, ainda pode receber essa motivação na escola e ter a certeza de que ela tem capacidade de aprender e desenvolver suas aptidões. 

Para além das controvérsias de pesquisas como a de Rosenthal e Jacobson, quero reforçar essa ideia com os diversos exemplos de escolas públicas brasileiras situadas em locais de baixo IDH que têm estudantes com os melhores desempenhos do Brasil. Qual é o milagre? Geralmente, uma pessoa muito entusiasmada consegue contaminar toda a comunidade escolar e, por consequência, os alunos se sentem motivados a aprender e colaborar uns com os outros. Nestas escolas, é comum ver ações de colaboração entre famílias, gestores, professores e estudantes.* 

A motivação instigada pelos professores por meio de atividades desafiadoras pode influenciar uma pessoa por toda a sua vida. Esse estímulo não significa apenas esperar boas notas, mas sim dar o exemplo de atitude interessada em aprender coisas novas e também colaborar na aprendizagem da criança, dando a ela o suporte que for necessário. Um olhar confiante é o primeiro passo, não só para professores, mas também para familiares e sociedade, para termos crianças curiosas e interessadas em aprender. É uma lição que está ao nosso alcance: a expectativa que colocamos nas crianças e o nível de desafio que propomos em cada conversa, em cada interação, podem moldar uma personalidade investigativa, reflexiva e colaborativa.


  • Artigo publicado no jornal Gazeta do Sul em 25 de junho de 2025.
  • Foto tirada no Community Literacy Center da Universidade de New Hampshire, onde eu tive a oportunidade de trabalhar como Graduate Assistant ao longo de dois semestres letivos enquando cursava um Mestrado em Educação na mesma universidade. Na foto, apareço em primeiro plano com o livro que estou lendo para as crianças que frequentavam as oficinas "Do livro para a arte" (Book to Art) no espaço educativo do CLC. Durante esses dois semestres, também fiquei encarregada de escrever blogposts resenhando pesquisas sobre alfabetização, literacia e letramento para o blog do projeto, chamado Tinder and Flint (nome que homenageia uma série de livros de aventura e fantasia). Este blog da UNH também está hospedado no blogger.


* Recomendo os seguintes vídeos sobre o assunto:


Reportagem da BBC Brasil sobre as escolas de melhor e de pior nota no IDEB 2023. As diferenças ficam claras e passam pela questão levantada por este artigo. No Youtube: "Duas cidades pobres, mas uma tem a melhor educação básica do Brasil". Em: https://www.youtube.com/watch?v=LxEjBAXkMew


"Educação que dá certo: Episódio 1: Teresina, a cidade com o maior IDEB", 2022. Em: https://www.youtube.com/watch?v=GRn30502bAg


           "Educação que dá certo: Episódio 1: Ceará, estado referência em colaboração", 2022. Em: https://www.youtube.com/watch?v=5R_jlbbOUVA&t=932s

                           

Referências


DWECK, Carol. Mindset: the new psychology of success. New York, Random House, 2006.


GARDNER, Howard. The Unschooled Mind: How Children Think and How Schools Should Teach. New York, HarperCollins Publishers, 1991.

RESNICK, Mitchel. Jardim de Infância para a Vida Toda: por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. Porto Alegre, Editora Penso, 2020.

ROSE, Todd. The end of average: unlocking our potential by embracing what makes us different. New York, HarperCollins Publishers, 2017.

ROSENTHAL, R., & JACOBSON, L.. Teachers' expectancies: Determinates of pupils' IQ gains. Psychological Reports, 19, 115-118, 1966.



sexta-feira, 6 de junho de 2025

Falar e escrever, o que têm a ver?

 


Provavelmente você já teve a experiência de conversar em sala de aula, ou pelo menos de ver colegas conversando, não é? Quero falar aqui sobre um tipo de conversa em sala de aula usado como metodologia em outros países, que tive a chance de ver funcionando e dando excelentes resultados.

Países que ficam no topo das avaliações internacionais de educação, como a Finlândia, descobriram que um dos segredos da alfabetização é propiciar momentos em que os estudantes conversem uns com os outros. Essa conversa precisa ser mediada pelo professor e feita de forma intencional, tratando do conteúdo estudado e usando a linguagem acadêmica: aquela dos livros e materiais escolares. 

Falo de um verdadeiro diálogo entre as crianças. Não aquele curto período em que um professor faz perguntas para a turma com o objetivo de verificar a compreensão de algum assunto. Isso não é suficiente. Quando a conversa em sala de aula é muito centrada no professor, os alunos não conseguem desenvolver o pensamento, simplesmente porque não têm oportunidades de se expressar com frases completas. Somente a prática do diálogo entre os estudantes  e um tempo razoável para explorar o conteúdo terão o efeito de facilitar a alfabetização. 

A prática da linguagem oral é crucial para organizar o pensamento, transmitir  ideias e expressar opiniões. Na década de 1960, o britânico Andrew Wilkinson observou que o desenvolvimento da oralidade (“oracy”, termo que ele introduziu por meio de sua pesquisa) levaria ao aumento da habilidade de leitura e escrita à medida que os estudantes se tornassem cada vez mais proficientes.

Nas salas de aula tradicionais, os professores falam durante a maior parte do tempo, enquanto os alunos permanecem em silêncio ouvindo ou fazendo suas tarefas individualmente. Espera-se que os alunos memorizem e depois repitam o conteúdo em provas e trabalhos escritos. Uma pesquisa recente que me encantou, conduzida por Jennifer Keys Adair, sobre dinâmicas em sala de aula, mostra que melhores resultados na aprendizagem de alunos de 1º e 2º anos ocorrem justamente quando a dinâmica permite a “agência” do estudante: autonomia para pesquisar e oportunidades variadas de conversar com colegas sobre o material estudado.

Pais e familiares podem seguir as mesmas dicas para ajudar as crianças a melhorar suas habilidades de leitura e escrita por meio da fala. Conversas livres sobre temas do cotidiano com as crianças impulsionam suas habilidades expressivas, o que impacta positivamente no pensamento lógico e no uso da linguagem. A conversa pode partir de um livro ou apenas de perguntas abertas sobre temas que as crianças conheçam. Talvez os avós sejam os familiares que mais aproveitam essas oportunidades. Eles sabem o quanto essas conversas podem ser reveladoras e divertidas!


  • Artigo publicado no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul, em 06 de junho de 2025.

  • Imagem: foto tirada por mim na sala de aula do 5º ano da escola Little Harbour, na cidade de Portsmouth, New Hampshire, onde fiz um dos estágios de observação do Master in Educational Studies da Universidade de New Hampshire, EUA.


Referências


ADAIR, Jennifer K., COLEGROVE, Kiyomi & MCMANUS, Molly. “How the Word Gap Argument Negatively Impacts Young Children of Latinx Immigrants Conceptualizations of Learning" In: Harvard Educational Review 87(3):309-334, Harvard Education Publishing Group, 2017.

COHEN, Elizabeth G., LOTAN, Rachel A. Planejando o Trabalho em Grupo: estratégias para salas de aula heterogêneas. Porto Alegre, Editora Penso, Instituto Sidarta, 2017.

KHAN, Salman. Um Mundo, uma Escola, a educação reinventada. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2013.

RESNICK, Mitchel. Jardim de Infância para a Vida Toda: por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. Porto Alegre, Editora Penso, 2020.

ROBINSON, Ken & ARONICA, Lou. Escolas Criativas: a revolução que está transformando a educação. Porto Alegre, Editora Penso, 2019.

WILKINSON, Andrew. The Concept of Oracy. In: Educational Review17(4), 11–15. https://doi.org/10.1080/0013191770170401a. Taylor & Francis, The University of Birmingham, 1965.




domingo, 18 de maio de 2025

E se todas as aulas fossem invertidas?


    A aula invertida é aquela em que os estudantes precisam fazer uma pesquisa ou leitura prévia, para que na aula aquele conteúdo seja trabalhado com a mediação do professor, sem que o tema precise ser apresentado do zero. Na aula invertida, o tema é expandido em forma de atividades variadas, escritas e orais, que demandam o entendimento do tema. O professor atua como um guia, um orientador (não mais como um apresentador de conteúdos).
            Mas... e se todas as aulas fossem invertidas? Para quem nunca imaginou uma sequer, essa ideia pode parecer uma loucura. Pois posso dizer com segurança que ter todas as aulas invertidas é uma rotina altamente produtiva e estimulante. Minha certeza vem de experiência própria em um Masters em Educação que fiz nos EUA e na observação da dinâmica dos estudos da minha filha ao longo de três anos no Ensino Médio em New Hampshire (EUA).
            Tanto no meu curso quanto no Ensino Médio da minha filha, não houve uma única aula expositiva ao longo de todo esse período. Sim, dá muito trabalho para os estudantes, às vezes muito mais do que estamos acostumados na educação tradicional, pois além de ler e assistir ao material indicado antes, passamos as aulas inteiras trabalhando, produzindo textos, fazendo conexões e trocando ideias com os colegas. Pode ser exaustivo, mas o aprendizado é fecundo e envolve prática de relacionamento interpessoal e trabalho em equipe, o que facilita a empatia.
            Na educação tradicional, baseada em aulas expositivas seguidas de testes e provas, os alunos se acostumam a ser passivos, a receber o conteúdo apenas em sala de aula, como se o professor fosse o único detentor daquele saber. Com a metodologia da aula invertida, o conteúdo é extraído de diversas fontes, tanto da internet quanto de livros, e diferentes formatos: textos, vídeos, filmes, fotografias, desenhos, tutoriais, entrevistas, experiências, etc.
            A função do professor será selecionar os materiais a serem recomendados e escolher como serão as atividades, se baseadas em questões, em problemas, em projetos, em debates, em encenações ou apresentações. A principal ferramenta nesse processo é o diálogo entre os alunos, mediado pelo professor, e a produção de textos, cartazes, diagramas ou qualquer outra forma de expressar o entendimento do ponto estudado.
            O resultado do uso dessas metodologias ativas é o desenvolvimento da capacidade de encontrar informações relevantes, refletir, aplicar o conhecimento adquirido e trabalhar em equipe. A chance de ouvir o ponto de vista dos colegas fará com que o aluno entenda o material de forma multifacetada, abrindo caminho para a criatividade, tão cara à ciência e à criação artística e tecnológica. Garanto que é fantástico porque minha experiência foi completa: como estudante, como pesquisadora e também enquanto mãe observadora.

  • Artigo publicado no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul, em 16 de maio de 2025.


Referências

KHAN, Salman. Um Mundo, uma Escola, a educação reinventada. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2013.

RESNICK, Mitchel. "Rethinking Learning in the Digital Age", CHAPTER 3. The Media Laboratory Massachusetts Institute of Technology, 2013.

VARENNE, Hervé & MCDERMOTT, Ray. Successful Failure. Boulder, Westview Press, 1998.


sábado, 3 de maio de 2025

Inclusão de todos: boa notícia*

   A close-up of hands touching a pie chart

Uma feliz coincidência pode representar uma boa notícia para a educação no Brasil. As conclusões de pesquisas recentes sobre classes inclusivas surpreendentemente combinam com as recomendações para a transformação da educação tradicional, mesmo quando tais propostas não abordam especificamente a questão da inclusão de estudantes com deficiência intelectual. Vamos deixar claro aqui que o problema da educação hoje não passa apenas pela questão das metodologias, mas também pelo estado atual de desvalorização dos professores e pela falta de diálogo e autonomia nas escolas.
            Recapitulando: como funciona a sala de aula tradicional? Os estudantes devem sentar-se quietos, fazer silêncio, olhar para a frente e ouvir o professor. O conteúdo é apresentado oralmente pela pessoa que detém o conhecimento, que é o centro das atenções, e os alunos devem absorver aquele conteúdo e reproduzi-lo em exercícios escritos, nos testes e na prova final. Pronto! Depois, podem esquecer, porque já receberam a nota pela qual todo o esforço foi feito.
            Resumo terrível, não? Pois é nesse formato que a educação tem sido oferecida às crianças e jovens pelo menos nas últimas seis décadas no Brasil. A ênfase em aulas expositivas e testes padronizados gera estudantes passivos (ou distraídos). Ou seja, nossas crianças são treinadas por 12 anos a terem um comportamento passivo, competitivo e solitário (pensemos juntos qual seria o contrário dessas três atitudes.)
            Além disso, o método de avaliação por meio de testes e provas reduz a diversidade de raciocínio e dificulta a adaptação de ritmo e conteúdo às necessidades individuais dos estudantes. Um teste será útil se servir de diagnóstico para complementar o que não foi aprendido, em vez de apenas rotular os estudantes. A ideia de diferenciação de conteúdos e de formas de ensinar para tipos diversos de estudantes (relacionado ao conceito de Desenho Universal para Aprendizagem), aparece em artigos científicos no mundo todo, mas não muito na prática das escolas no Brasil. 
            Paralelamente à crise geral da educação, o que tem desacomodado o sistema escolar nos últimos 15 anos é a inclusão de crianças com deficiências. Pois bem. Geralmente, as recomendações das pesquisas mais atualizadas para escolas inclusivas são: redefinição dos processos de ensino-aprendizagem, uso de abordagens com aplicação prática dos conceitos, criação de currículo individualizado ou adaptação de currículo, colaboração entre os alunos, uso de metodologias ativas (todas as dinâmicas pedagógicas que não sejam a tradicional combinação aula expositiva e prova), uso de programas flexíveis, multidisciplinaridade, diálogo entre estudantes, estudo em grupo em sala de aula e apoio mútuo. Exatamente as mesmas recomendações para a transformação da educação tradicional em uma forma mais colaborativa de aprendizagem.
            Se as pesquisas em neurociência concluem que o aprendizado efetivo ocorre quando há participação ativa do aluno na construção do seu próprio conhecimento, então, aprender aplicando os temas a situações práticas, debatendo para ouvir o ponto de vista dos colegas, fazendo inferências e conexões representaria o processo de ensino-aprendizagem ideal. Todas, absolutamente todas as recomendações para classes com diversidade seriam oportunidades muito mais efetivas de ensinar qualquer turma, tendo ela pessoas com neurodiversidade, dificuldade de aprendizagem ou não. 
            Cabe aqui um adendo oportuno. A prática das metodologias ativas inclui todos os alunos no processo de aprendizagem. Se bem aplicada, essa prática transforma o professor em um guia, que orienta e coopera com a aprendizagem dos estudantes. O estudo colaborativo gera autoconhecimento, melhora a autoestima, ensina a pesquisar e a trabalhar em equipe, leva à empatia entre colegas e professores e tem grandes chances de disseminar o entusiasmo pelo conhecimento.


  • Artigo publicado no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul, em 29 de abril de 2025.


REFERÊNCIAS


COHEN, Eizabeth G., LOTAN, Rachel A. Planejando o trabalho em grupo: estratégias para salas de aula heterogêneas. Porto Alegre, Editora Penso, Instituto Sidarta, 2017.

KHAN, Salman. Um Mundo, uma escola, a educação reinventada. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2013.

RESNICK, Mitchel. Jardim de infância para a vida toda: por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. Porto Alegre, Editora Penso, 2020.

ROBINSON, Ken & ARONICA, Lou. Escolas criativas: a revolução que está transformando a educação. Porto Alegre, Editora Penso, 2019.







O efeito Pigmalião na educação

  Uma pesquisa sobre educação que me impressionou recentemente foi a que ficou conhecida como “Efeito Pigmalião” ou “Efeito Rosenthal”. No m...